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quinta-feira, 18 de julho de 2013

UMA RETA, DOIS HOMENS, UM LUGAR NO PÓDIO

No ano passado, em abril, o Caio me enviou um relato da IX Corrida do Exército, o qual foi publicado com o título "Caçador e Caça". Na prova da Adidas, etapa inverno, o Caio novamente protagonizou uma disputa acirrada que, novamente, mereceu um relato especial pela forma inusitada que transcorreu. A iniciar que o Caio não pretendia participar de competição alguma. Estava disposto a superar um desafio de estabelecer um novo record pessoal e jamais competir pelas primeiras
posições da prova. Leiam a seguir a façanha do Caio.
" Uma reta, dois homens, um lugar no pódio
Certa vez, quando eu era criança, meu pai me contou que, quando ele tinha uns dez anos, idade que completara em 1946, havia visto um duelo em Bocaiuva do Sul, pequena cidade do interior paranaense onde minha avó nascera. Um território de pouca lei, dois homens armados, uma desavença irresolúvel. “E aí, pai, o que aconteceu? Conta logo.” Ele respondeu: “Os dois tinham boa pontaria e atiraram ao mesmo tempo. Um matou o outro.” E a cidade se livrou de dois encrenqueiros.

Hoje os homens duelam no esporte. Vocês já acompanharam um torneio de judô ou tênis? O sistema de competição é o eliminatório, vulgarmente chamado de “mata-mata”. Dois atletas se enfrentam; o perdedor é eliminado da competição, e o vencedor avança para a etapa seguinte para enfrentar o “sobrevivente” de outro confronto. Até que, na final, disputam o título de campeão os dois únicos atletas que não foram derrotados.

No triatlo ou na corrida não há duelos. Somos privilegiados, pois todos podem concluir a prova. Uma corrida com dois mil participantes pode ter quase dois mil vencedores! O que completa um percurso de 10 km pela primeira vez na vida sente-se um vencedor. O que o completa em menos de uma hora, 50 minutos ou 40, depois de meses de treino e várias tentativas, é um vitorioso. O que faz isso pela décima vez comemora a proeza gloriosamente. O que não obtém nenhuma marca significativa pode também sentir-se feliz, simplesmente por ter corrido bem.

Participei no último domingo (23/06/2013) da Corrida de Inverno do Circuito das Estações, promovida pela Adidas, no bairro Tarumã (Curitiba), na distância de 5 km. Disseram-me que o percurso era praticamente todo plano. Achei, então, que era uma boa oportunidade de bater meu recorde. Estabeleci como meta concluir a prova em 17’45” (média de 3’33”/km).

Disseram-me também que era remota a chance de eu chegar ao pódio. Afinal, não existia premiação para as faixas etárias, e, embora poucos atletas de alto nível costumassem participar do referido circuito, sempre havia número suficiente deles para ocupar os três primeiros lugares, tanto na prova de 5 km quanto na de 10 km.

Mas quem estava interessado em pódio? Eu não derramaria um pingo de suor a mais para tentar obter premiação. Das centenas de corredores que participariam da competição, apenas uns dez ou 20 correriam pensando em chegar entre os primeiros – todos garotos entre 20 e 40 anos. Os demais sabem que não têm chance de levar um troféu para casa, mas pouco se importam com isso. Em triatlos e corridas, muitas vezes fico entre os primeiros na minha faixa etária (45-49 anos), mas meu objetivo nessa prova era o recorde pessoal nos 5 km. Que se dane o pódio!

Tive, de novo na véspera de uma competição, insônia. Dormi apenas da meia-noite às 2h00, depois não preguei mais o olho, até que chegou a hora de levantar. Mesmo assim, não me senti mal durante a prova: acho que corri razoavelmente bem naquela manhã gelada (9° C) e de muita neblina, conforme vocês podem ver nas passadas largas e elegantes e no semblante sereno da foto abaixo:


É sempre assim. Se há muito coisa de que me orgulho é que jamais, nunca, em tempo algum, em hipótese nenhuma perco a elegância e a compostura ao participar de um evento esportivo.
Os dois primeiros quilômetros não eram planos. Eram um “falso plano”, conforme costumamos dizer quando a inclinação da rua é tão leve que alguns nem a percebem. Mas a subida suave já me dificultava manter a velocidade de que eu precisava.
Depois do segundo quilômetro, havia uma subida meio difícil, de uns 70 m e 4° ou 5° de inclinação, que, apesar de curta, prejudica a velocidade média e me deixa cansado e lento durante alguns minutos subsequentes. Ô, desgraça! Quem foi a anta que colocou aquela subida no meio do caminho? Meu desempenho em subidas é ruim! Eu a subi xingando. Chamei a gravidade de traiçoeira, enxerida, torturante e estraga-recordes. Vociferei também contra o planejador do trajeto: incompetente, desleixado, pascácio e emperra-corridas. Tive de ser duro com eles, estavam colocando em risco meu recorde. Enquanto eu proferia os palavrões, um corredor me ultrapassou com facilidade. Era o sujeito do chip (a peça que se prende no tênis ou no tornozelo e cuja passagem é captada por um tapete eletrônico, na largada e na chegada, para registrar em computador o tempo do atleta e definir sua classificação). Aproveitei e o xinguei também, mas em voz baixa, para não correr o risco de ser desclassificado por conduta antidesportiva. Um garoto de uns nove anos que da ladeira assistia à prova me ouviu e disse: “Cala a boca e corre, velho rabugento.” Xinguei o atrevido de magrelo e ameacei partir pra cima dele. O menino sumiu. Corria mais do que eu, o danado.

Mesmo com as subidas, passei pelo marco do 3º km aos 10'43", apenas 4" acima da minha meta. Como os últimos dois quilômetros seriam a volta pelo falso plano, agora uma descida suave, achei que conseguiria concluir facilmente o percurso em menos de 17'45".

Faltando cerca de 1,5 km para o final, fui aumentando a velocidade. Se meu desempenho em subidas é ruim, em descidas é muito bom. Abençoada gravidade! Todavia, o 4º km demorou muito a chegar, eu o completei em 14'45", tempo muito acima da meta (14'12"). Os marcos estavam mal colocados. Eu já não sabia se estava no ritmo certo para bater meu recorde. Só me restava continuar correndo rápido, ou tentar correr ainda mais rápido.

Achei que, àquela altura, estava em 6º ou 7º lugar. Mas ultrapassei dois corredores. Depois passei por mais um, quando ele parou para pegar o chip, que estava se soltando do tênis. Era o atleta que me havia ultrapassado na subida meio íngreme.

Pouco antes de entrar no Jockey Club, local da chegada, ouvi a voz do locutor da prova ecoando a partir do potente sistema de som: "O segundo colocado acaba de chegar, agora só falta o terceiro para completar o pódio." 

Só falta o terceiro? E eu, próximo da chegada? Ora, achei que estava no páreo! 

Entrei no Jockey Club, dois corredores que eu havia ultrapassado estavam juntos comigo, um de cada lado – e um deles era o que havia parado para pegar o chip. Faltavam uns 80 m para a chegada. Aí, o locutor falou: "O terceiro colocado será um desses três que estão em disputa acirrada. Vai ser emocionante, minha gente!"

Pronto! Meus hormônios competitivos acordaram. Não pude fazer nada, fiquei à mercê deles. Eu já estava exausto, mas mandei a exaustão para o espaço e comecei a correr a toda velocidade. O atleta com o chip na mão veio junto e emparelhou; o outro também tentou, mas não suportou participar da arrancada final e ficou para trás. Assim como a plateia, o locutor estava empolgado, mas nem sei mais o que ele dizia. Eu corria lado a lado com um atleta determinado. Um não abria nem perdia vantagem para o outro. Cabeça a cabeça. Esforço máximo. Adrenalina deixando-nos velozes e alucinados. Uma reta, dois fundistas obstinados, apenas mais um lugar no pódio. Um duelo, com certeza. Os dedos alertas bem próximos do coldre. Quem sacaria mais rápido?



Cruzamos a linha de chegada. O locutor falou: "Xi! Não é possível saber quem é o terceiro colocado. Nem me atrevo a dizer. Isso é problema para os cronometristas. Eles que se virem..." 

 


Depois de recuperar o fôlego, perguntei ao outro corredor: "Você acha que chegou à frente?" Ele, gesticulando, pois ainda não tinha condições de falar, respondeu que não sabia. Eu também não sabia. Para mim, havíamos chegado exatamente juntos. Algumas pessoas vieram parabenizar-me pelo sprint, então eu aproveitava e perguntava: "Quem chegou à frente?" Todo mundo viu a chegada, ninguém viu quem chegou antes. Um deles me respondeu assim: "Ah, meu filho, isso só Deus sabe." Andando pra lá e pra cá, falei com muitas pessoas da organização, até que uma delas me informou: "O 3º lugar da corrida dos 5 km já está definido. Quem decidiu foi o fiscal da prova, levando em conta a passagem do torso do atleta pela linha de chegada. Nesses casos, não é o chip que decide." Mas ele não sabia o nome do terceiro colocado. Não sabia nem se era o magrinho ou o de chip na mão.

Finalmente, encontrei alguém da cronometragem. Ele perguntou qual era meu número, foi ao interior da barraca ver o computador ou uma lista, voltou e disse: "Seu gatilho foi mais rápido. Você ficou em terceiro."

Legal! Terceiro no geral! Qual o meu tempo na prova? Não importa, fiquei em terceiro lugar e fui para o pódio.


Ganhei um belo troféu, um buquê de flores e alguns brindes da Caixa Econômica Federal --- nenhum deles era uma caderneta de poupança com bastante dinheiro depositado, infelizmente.

Um abraço.

Caio
caioparanaense@yahoo.com.br

Adendo técnico:

O percurso tinha 5.100 m, como meu GPS de pulso havia medido, e não 5 km, e eu o concluí em 18’12” líquidos (o tempo bruto conta-se desde o sinal da largada; o líquido, apenas a partir da passagem do atleta pela linha de partida, o que pode demorar muitos segundos ou até minutos, dependendo do número de participantes). Tracei o percurso no programa do site MapMyRun (que considero muito bom para medir percursos --- confio mais nele do que em GPS de pulso):

Parece que o mentiroso do meu GPS de vez em quando conta uma verdade.

Reparem no gráfico que há mesmo um falso plano: subida leve na ida, descida suave na volta.

Isso quer dizer que fiz 5 km em 17'51". Já é o meu recorde. Se não fosse aquela subida meio forte de uns 70 m, eu teria conseguido atingir o tempo desejado (17'45"). Com insônia e tudo."

Agradeço ao Caio pelo relato e ao Claúdio Fuzino pela indicação.

4 comentários:

  1. Cláudio,

    Um pouco longo, mas muito interessante.

    Valeu !

    Abraços,

    Julian

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  2. Relato ótimo, mas medição de Map My Run não vale :)

    ResponderExcluir
  3. Adolfo,

    Ótimo relato. Um pouco extenso, mas vale a pena a leitura.

    Abraços,

    Julian

    ResponderExcluir

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