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quinta-feira, 10 de maio de 2012

CAÇADOR & CAÇA - RELATO

O relato que segue é de um corredor da IX Corrida do Exército em Curitiba, realizada no dia 15 de abril de 2012. O Caio (este é o nome dele) participou de um sprint final em disputa acirrada com um competidor e teve que usar de todas as forças para se manter vivo (ao menos no seu posto na corrida).
É importante observar como reagimos em situações que nos colocam em risco ou nos ameçam. Muitas vezes nem acreditamos que podemos ter tanto energia e força, mas conseguimos dar uma resposta naquele momento.

Vamos ao relato:
 "O sprint que se vê na fotografia abaixo, ocorrido na IX Corrida do Exército em Curitiba, é um dos capítulos recentes de uma história que começou milhares de anos atrás.


Na crônica abaixo, eu conto a história.

Um abraço.

Caio

Instinto de sobrevivência

O que é mais forte: o instinto de sobrevivência da caça ou o do caçador?

A gazela perseguida pelo leão sempre corre o mais rápido possível, impelida pelo medo da morte. Ela não pode esmorecer em nenhuma perseguição. Se titubear, vira janta.

Quanto ao leão, se a fome ainda não é muita, seu ataque não é empreendido com empenho máximo. A história é outra, se o animal está atormentado pela inanição: a necessidade de sucesso na caça é vital, então a arremetida contra a presa ocorre com fúria, força e velocidade extremas.

Enfim, se a situação é crítica, tanto a presa como o predador conseguem atingir o potencial máximo de corrida.

E no tocante aos humanos da pré-história, nossos ancestrais, que caçavam e também podiam ser caçados? Em que situação corriam mais: quando estavam aterrorizados na frente de um grande e dentuço felino ou quando, famintos, estavam atrás de uma galinha aflita?

Caros colegas, no que me diz respeito, o instinto da caça é superior. Lembro-me da primeira vez que tomei consciência disso, alguns anos atrás. Nas competições de corrida, costumo ter um bom desempenho na segunda metade da prova, quando, quase sempre, ultrapasso alguns corredores e não sou ultrapassado por ninguém. Na ocasião referida, eu estava mais ou menos em 50º lugar geral numa corrida de 10 km e faltavam 2 km para o final, quando avistei uns sete ou oito corredores espalhados por cem metros à minha frente. Pensei, como se fosse um predador faminto, temido e virtuoso: "Vou acelerar e chegar à frente de todos." Eu estava me sentindo bem e tinha energia para aumentar o ritmo. De fato, aos poucos fui passando por aqueles atletas, que já estavam cansados e diminuindo a velocidade, até que sobrou apenas um, dentre os que eu havia visto ao final do oitavo quilômetro. Estávamos a uns 150 m da chegada. Eu ofegava e tinha dificuldade de manter o ritmo mais forte. Seria necessário aumentar ainda mais a velocidade para alcançá-lo, mas senti que não era possível. Paciência! Desisti de ultrapassar o derradeiro. Eu havia chegado ao limite, já tinha corrido o máximo que podia, não tinha condição nenhuma para uma arremetida final em alta velocidade.

Mas foi aí que o caçador virou caça e meus hormônios se revolveram.

Mal desisti de vencer o corredor que estava à minha frente, ouvi outro aproximando-se atrás de mim. O sujeito vinha bufando e socando o asfalto. Provavelmente, um daqueles que ultrapassei não gostou de ser superado e, no limite de suas forças, tentava me alcançar para retomar a posição perdida. Um desespero de presa arrebatou-me o espírito. Como não olhei para trás, minhas pernas finas e tortas, premidas por genes ressabiados herdados dos homens das cavernas, não sabiam o que as perseguia, se era um atleta determinado ou um tigre-dentes-de-sabre. Estávamos prestes a ser abatidos por um terrível carniceiro! Não sei de onde vieram as forças nem para onde foi o cansaço, mas bastou perceber a aproximação do suposto predador e comecei a correr como um velocista. Distanciei-me do perseguidor e, no embalo, sem querer, ultrapassei até aquele rapaz que estava na frente, o tal "derradeiro".

Desde então passei a achar que meu instinto de presa é mais forte do que o de caçador. Posso correr muito rápido para evitar ser ultrapassado, mas a gana de alcançar um adversário não me torna tão potente. Descendo de uma linhagem iniciada por um homem pré-histórico que, mesmo esfomeado, não se empenhava muito para pegar à unha uma galinha agitada, mas disparava logo em desabalada carreira se ouvisse ao longe o rugido surdo de um leão anêmico. Seus filhos, netos e bisnetos reforçaram o distinto gene: só comeram frutas, verduras, raízes, cágados, lesmas e galinhas mancas, mas sempre correram alucinadamente ao pressentirem a aproximação de alguma fera.

No último domingo (15/04/2012) participei da IX Corrida do Exército (largada e chegada dentro do quartel) e senti, mais uma vez, a força dessa herança genética.

Corri muito bem, apesar da fase ruim. No sexto quilômetro um jovem conhecido me alcançou, e seguiríamos lado a lado até o penúltimo quilômetro. Deixamos para trás dois atletas, e um terceiro, de camiseta amarela, estava uns dez metros à nossa frente ao final do nono quilômetro. Eu já tinha começado a aumentar a velocidade para terminar a prova. Meu companheiro sentiu que não suportaria o novo ritmo, notou que eu corria e respirava com facilidade e disse: "Acho que você consegue alcançar o de amarelo." Respondi-lhe que sim, acelerei um pouco mais, deixando-o para trás, e 200 m depois ultrapassei a camiseta amarela. Ele estava ofegante; eu, em ritmo forte e constante. Certamente, ele não tentaria acompanhar-me. Entrei no quartel a passos largos, mas com o semblante sereno e resoluto, pois queria terminar a prova elegantemente para sair bem na fotografia (haviam informado que um fotógrafo profissional estaria na chegada).

Faltando uns 60 metros para o final, porém, uma moça que assistia à competição assoprou em meu ouvido, para que ninguém mais pudesse ouvi-la: "Corre, que estão quase te alcançando." Olhei para trás e tomei um susto: um guepardo medonho estava prestes a dar o pulo fatal para cravar os dentes na minha jugular. Um atleta enfezado vinha correndo a toda a velocidade – ele queria me ultrapassar, estava muito próximo, cinco ou seis metros, e acho que era mais veloz do que eu. A elegância foi pro espaço, até fiz careta – o sujeito me estragou a fotografia. Corri o mais rápido que pude, conforme vocês podem observar nesta foto:

A moça me alertou na hora certa. Uma santa! Eu não tinha ouvido a aproximação do obstinado voador. Ele vinha muito rápido, mas sorrateiramente, para que eu não reagisse a tempo. Mas deu tempo, como vocês podem ver nesta outra fotografia:


Foram 10.240 m em 38'13" (tempo líquido de 38'09"), mas os últimos metros foram percorridos a uns 26 km/h. Fui o 10º colocado no geral (isso é muito mais legal do que 11º). Graças ao instinto de sobrevivência da presa.
Um abraço.
Caio
caioparanaense@yahoo.com.br"
A sugestão de fazer um post deste episódio foi do colega Claudio Fuzino.
Aos dois envolvidos nesta história meu agradecimento.

8 comentários:

  1. Muito bom!

    Mas, se você estudar a história antiga, talvez os dois tenham conseguido comer:) Ninguém passou fome!

    Assistam este vídeo do Chris McDougall (tem legendas em português brasileiro) e vão ver que as caçadas pré-históricas eram em grupo. Todos corriam e, quando dava certo, todos comiam no final.

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  2. Mais sobre a corrida de persistência aqui:

    http://en.wikipedia.org/wiki/Persistence_hunting

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  3. Adolfo,
    Obrigado pelos comentários e contribuição.
    Na antiguidade prevalecia a lei do mais forte. Porém, nem por isso o perdedor era condenado à morte por inaniçao.
    Abraços,

    Julian

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  4. Maravilhoso o seu relato. Parabéns a Presa!
    Abraços e bons treinos!

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  5. Achei interessante e me identifiquei com o relato.
    Realmente, na corrida é mais gostoso e desafiador quando tem gente por perto.

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